O acaso

Sozinho em meu quarto, penso em todos que passaram por mim. Aqueles que realmente marcaram-me. A incerteza do que poderíamos ter sido corrói meus pensamentos. Sinto falta de cada um deles, uns mais, outros menos… 

Percebo que nem sequer voltei a gostar, desde o meu último término. Parece que todos foram levando um pedaço meu… até não restar mais nenhum para que eu pudesse dar a alguém. Que bom, não é? Se todos se vão mesmo, por que permitir mais marcas? Calma, não é que eu esteja trancado, eu só estou num novo momento. Um momeno só meu. Sinto falta de alguém. Sinto falta de você… Sinto falta dele… Sinto falta de mim, embora eu só tenha a mim e esteja comigo mesmo (e só) todos os dias. Eu vejo que cada um dos meus términos foram necessários, mas se eu pudesse escolher, não tinha terminado nenhuma das vezes. Fraqueza? Não. Saudade? Talvez, cada um tinha algo que eu amava mais que a mim…. 

Mais que a mim… que coisa estúpida de ser dita! Mas é. Sou sincero. E sei que você também já amou tão desesperadamente que se anulou várias e várias vezes. Que, sufocantemente, disse “eu te amo” somente porque não conseguia conter isso dentro de si. Pode rir. É uma sensação boa… enquanto dura. 

Por fim, remedio minhas feridas com minhas próprias lambidas. É o que me resta. O vazio que habita em mim somente eu posso preencher, mas ainda sou pouco. O tempo me tornará muito. Ou não. Talvez chegue um novo alguém que não me exija um pedaço. Que não exija absolutamente nada. Que fique em silêncio. Que eu escute apenas sua respiração ofegante, ou fraca, ou inebriante, ou manhosa. Que seja tão pouco quanto eu. Que seja tão muito, que ao ser divido, me torne melhor. Que apenas seja… Que apenas seja meu. 

Era fácil de prever…

Era fácil de prever que eu me apaixonaria por você. Quem não se apaixonaria por essa voz meiga e esse jeito doce? Eu me apaixonei pela sua barba, sua bota de couro e sua blusa branca. Pelo seu cabelo (des)arrumado e seu sotaque carregado. 

Que nada, a paixão nos fortalece, nos embriaga, nos eleva ao infinito. Ela mesma esmaga, ela mesma desarma… Ela mesma empodera. 

Eu só queria poder te tocar mais uma vez; não como da última vez, mas como da primeira vez… da primeira vez que você me despiu com seus olhos e que, instantaneamente, me cobriu com a luz do seu sorriso. 

E ao som do tilintar de sua voz, guardada na minha memória, encerro este texto expressando o meu mais profundo desejo: seja meu. 

Mais verdade. E só. 

Eu só quero que você entenda que às vezes eu fico quieto, mas não estou bravo. Só estou quieto, tenho os meus momentos, gosto da minha própria solidão. Nem sempre o que eu digo é verdade, mas eu nunca minto para você. O estresse não é o culpado, meu humor não é o culpado, em algumas ocasiões o culpado é você. Eu só quero que você entenda que eu te mando embora querendo que você fique. 

Penso em não te querer mais sonhando em como te ter mais um pouco. Fico com raiva de você e isso passa. Quero mais carinho e isso me cansa. Penso que você é um ser inatingível, um ser que vive num mundo fechado a mil chaves e cadeados…quero que você entenda: eu gosto de demonstrações de amor, paixão, seja lá o que for. Eu só quero que você entenda que te faço tantas perguntas para me sentir seguro. Tenho medo de te perder. Tenho um medo danado de você não mais me querer. Não quero que nenhum mal te aconteça, mas não sei bem como demonstrar isso, meto os pés pelas mãos e falo o que não devo. Falo sem parar, falo sem pensar. Eu só quero que você entenda que o não, às vezes, é sim. Que o sim, às vezes, é não. Que o talvez para mim não tem vez. Que acima de tudo eu te gosto demais e isso faz com que eu me torne grande e pequeno, adulto e criança,  confuso e certo. Eu só quero que você entenda que eu não gosto quando você vai embora. Não gosto quando você esconde o que sente. Não gosto quando você não me dá a menor bola. Não gosto quando você não gosta de esclarecer as coisas. Eu só quero que você entenda que eu sei do seu medo e da sua falta de coragem. Sei que você se esconde atrás do cansaço, do sono ou da falta de saco para certos assuntos. Sei que você inventa desculpas para você mesmo. E eu te digo: também tenho medo. Muito medo. Mas disfarço melhor do que você. Seguro a onda melhor do que você. Eu só quero que entenda que estarei aqui para sempre. Por mais que você me mande embora. Por mais que as coisas compliquem. Por mais que o mundo acabe. Por mais que você não me ame. Se eu falo que está tudo bem, quero que você pergunte de novo. E de novo. De vez em quando eu finjo que tudo está numa boa, mas também tenho o meu lado fraco. Preciso de colo. De atenção. De mão na cabeça. De música de ninar. Eu gosto do desespero. Se eu estou triste, quero você ao lado. Se eu estou bravo, quero você ao lado. Se eu estou num dia bom, quero você ao lado. Se meu dia foi péssimo, quero você ao lado. Quero o seu desespero. O meu desespero. Se eu viro as costas, quero você andando atrás. Se eu digo que não te quero mais, quero você gritando e me pedindo para te querer novamente. Nem sempre as minhas ações condizem com as minhas palavras. Me conheça. Me decifre. Me ame. Me ache. Me devore.

Acabou?

Ah, o amor!

O amor é a mais doce e mortal das armas. Ela revive pessoas mortas e mata pessoas vivas…

Eu me apaixonei por ele desde o primeiro instante que o vi, aquele ínfimo instante mais rápido que um piscar de olhos, aquele instante entre as batidas do coração…onde suas muralhas estão por terra. E então eu vivi a mais linda e intensa história que eu poderia ter vivido. Foi aquela história que me fez flutuar e querer viver com o meu amor. E o meu amor foi tão grande que eu lhe pus uma aliança em seu dedo.

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Mas acabou. Acabou quase tão rápido quanto começou. Mas e o amor? Ah, esse danado está aqui… vivinho da silva. E sabe de uma? Eu gosto dele. EU GOSTO de sentir ele. Mas ao mesmo tempo que ele me mantém de pé, ele me derruba. Ele crava suas garras em minha alma e fere ferozmente. Mas me alegra inigualavelmente. Masoquista?Talvez. Quem não?

Mas o  tempo é um verdadeiro opositor do amor. O tempo nos obriga a travar uma batalha que JAMAIS poderíamos ganhar….tudo isso pra que? Pra nos fazer amadurecer ou pro seu bel prazer? É, eu também gostaria de saber.

Sabe, eu tentei e tento todos os dias manter de pé as minhas promessas, os meus planos, os nossos planos…. Mas então vem aquela falta desesperada do outro, aquela saudade que não cabe em seu coração. E então você procura desesperadamente achar em outras pessoas ( não necessariamente um possível companheiro) o alívio que seu coração precisa para tentar esquecer, nem que por um instante, aquele amor. Aquele amado. Mas não dá. O amor sempre vence, ainda que lhe destrua.

O fim de um relacionamento traz consigo uma nuvem cheia de raios. Estes raios destroem tudo…aos poucos…e neste caso, eles caem não 2, mas 10 vezes no mesmo local. Incendeiam, matam e se vão. Aquela saudade passa a ficar ali no canto. Ela perde a voz, embora ainda grite em silêncio…um silêncio tão profundo que somente você o ouve…de dentro pra fora.

Se você é do tipo super protetor, então está fodido em cinquenta tons. Sabe aquela certeza de que ele não vai achar alguém como você? É, ela continuará ali, contigo…mas o tempo começa a lhe atormentar…e além de começar a duvidar disso, ele também lhe diz que você não vai achar alguém como ele. E isso dói. Dói porque você tenta desesperadamente voltar, mas o outro é orgulhoso demais ou lógico demais para concordar com essa loucura. Mas você o conhece tão bem, mas tão bem, que enxerga em seus olhos uma verdade oposta em relação a que sua boca profere a todo instante. Mas será que o conhece tão bem assim? Não sei…você se conhece?

E então sua paranoia aumenta. Você passa a vigiar seu facebook, você passa a fuçar suas redes sociais e nota que ele adicionou um homem…mais bonito que você. E você se morde, se rói, se debate, se fecha, se irrita, se vinga, intimida, fala coisas que nem existem e que você não sente…e então tudo isso passa. Passa mesmo? Não! Você o nota online e que ele nem falou com você hoje. Então você, em toda a sua carência, o chama…mas ele está frio. Você o provoca, mas brigam. Mas o amor é tão doente que mesmo brigando você o ama e o deseja dentro de ti, ainda mais que antes. Ainda mais que nunca. E assim se passa mais um dia… E que dia!

Então você lembra da família dele e percebe que até eles você ama. Os ama porque ‘te deram aquele cara dos seus sonhos’…mas instantaneamente você lembra que eles irão te esquecer. E se lembra também dos amigos dele. Aqueles mesmos amigos que você morria de ciúmes, mas que diziam que vocês formavam um casal perfeito… e você até começa a perceber que também gosta deles. E dos animais utópicos de estimação, dos filhos não planejados que vocês teriam eventualmente. Ah, cara, o que você tem na cabeça? UM ALGUÉM! A resposta imediatamente vem.

E no outro dia você ainda é o mesmo. Será que ele é? Tudo continua igual, menos o amor…porque ele, bem… ele aumentou. Que droga! Será que ele não vai embora? Ora, não por agora, não por hora, não sem demora. Mas será que tem volta? Não sei, mas desejo que isso sim seja sem demora.

As correntes que quebrei – 01

Olá, eu me chamo Felipe e tenho 23 anos de idade. A minha história é algo ainda corrente, de modo que ela será dividida em algumas partes e com atualizações em tempo real, por assim dizer.

Desde cedo sou assombrado pelo fantasma da desilusão. Eu não consigo me lembrar de ter tido um amor que me fizesse flutuar ou sentir borboletas no estômago por muito tempo. Para muitos, a adolescência é uma fase de ouro, onde você se apaixona, erra, conserta, apanha, bate etc. Pra mim não. Pra mim foi um período de densas trevas. Por que?

Porque o meu pai era alcoólatra. Eu sempre fui o filho excluído dele. É certo que a minha mãe fez um serviço tão maravilhoso que estes impactos foram reduzidos a quase nada. Quase…

As frequentes surras do meu pai e as brigas dele com a minha mãe por conta do seu jeito fizeram com que eu me trancasse num mundo só meu. Impenetrável.

Era 2006 e meu pai foi diagnosticado com o seu primeiro câncer. Era no esôfago. Por vivermos no interior, a minha mãe foi obrigada a ‘se mudar’ com ele para a capital a fim de buscar tratamento adequado. Mas e eu? Bem, eu fiquei em casa praticamente sozinho. É verdade que uma amada tia cuidava de mim e a minha mãe voltava para casa sempre que possível, mas não era o suficiente.

Nesta época eu tinha cerca de 13 anos.

Pela minha cabeça passavam milhões de coisas, mas confesso que nunca fui de me lamentar, afinal, eu ainda tinha um lar.

A minha vida na escola era muito difícil. Sempre tive um jeito efeminado e estava acima do peso.

As chacotas eram cada vez mais frequentes e inevitavelmente o meu espírito se abatia.

Três meses se passaram até que o meus pais voltassem para casa. Eu me senti muito alegre por ter a minha mãe por perto…já o meu pai, bem, por mim tanto fazia.

Olhar a sua face me remetia a um lado sombrio e obscuro, aquele lado que quase 100% dos meninos homossexuais tentam reprimir do seu pai, o ser masculino de sua vida.

A busca pela sua aceitação, ainda que indireta, me corroía a alma. Era uma coisa que somente eu sentia.

Meu dias se resumiam a escola e casa. As minhas noites eram as mais agitadas. Era à noite que eu tentava me matar.

Ainda me lembro bem da primeira vez. Enfiei uma faca em meu peito. Sangrou, mas não causou nenhum mal. Não fisicamente.

A liberdade que a morte me traria enchia os meus olhos, mas não era o suficiente para tamanho ato.

Os anos que se seguiram criaram uma carapaça tão resistente que ninguém parecia ser capaz de a atravessar. E sabem, eu me sentia seguro em meu mundo.

As coisas na minha casa pareciam finalmente ter melhorado. A minha mãe e o meu pai adentraram em uma instituição Cristã e a mudança de convivência foi notável! Eles já não brigavam tanto e eu me senti impelido a seguir por este caminho. Em 2009 me tornei uma Testemunha de Jeová. Com todo o gás, passei a lutar arduamente contra meus desejos sexuais. Eu até era feliz, mas eu só sentia isso porque não sabia o que era felicidade de fato.

A pressão psicológica que sofri ali dentro era sutil, mas supressora ao extremo. Dentre quedas e levantamentos, seguia meu caminho.

No mesmo ano, meu pai foi diagnosticado com um novo câncer: de pulmão.

As coisas tornaram-se caóticas e em apenas uma semana, a sua vida se esvaiu.

Após a descoberta, cerca de 5 dias depois, ele entrou em coma. Não fui visitá-lo. Não senti vontade. Sob muitas críticas, me mantive forte em minha decisão. Exatamente uma semana depois, ele faleceu de parada cardiorrespiratória.

Bem, secretamente, me senti aliviado de certa forma, embora jamais desejasse que ele morresse!

Na semana seguinte, confidenciei a minha mãe sobre a minha orientação sexual.

Sob muito choro, da parte dela, passei a ter o seu olhar mais atento. Confesso que me sentia sufocado. Ainda mais do que já era…

O meu pai fez falta no sentido financeiro. Neste período, passamos a viver sob o mesmo teto da minha avó. A casa era cheia. Foram momentos difíceis, mas agradeço muito pelo fato de termos tido para onde ir.

A sensação de vazio era crescente… A noite passou a ser a minha válvula de escape. Eu aproveitava o máximo que pudia e ‘extravasei’ meus desejos sexuais e emocionais. Inevitavelmente me apaixonei. Era um homem bem mais velho que eu…tinha cerca de 29 anos na época.

Sabem aquela carapaça? Pois bem, ele a quebrou, mas a quebrou para me dar o seu golpe de misericórdia: foi com ele a minha primeira grande desilusão amorosa.

Namoramos exatamente um mês. Fui traído, esnobado e leiloado.

Já lhes explico…

Com uma semana de namoro, ele me confessou uma traição. Segundo ele, o desejo carnal falou mais alto e, como eu era virgem, ele precisava extravasar com alguém. Esse alguém? Seu ex namorado.

Como todo apaixonado, perdoei.

Conheci a sua turma. Nossa! Foi fantástico. Me senti importante…

Como toda ‘carne nova’, todos me cobiçaram. Ao saberem que eu era virgem, armaram para que quem oferecesse o maior valor por mim, tivesse a ‘honra’ de tirar a minha virgindade. Me senti deflorado em minha alma. Imediatamente me afastei daquelas pessoas. Por sorte não conseguiram concretizar os seus planos.

Ao conversar com meu ex sobre isso, ele me disse que já sabia. Fiquei arrasado e sem rumo. Me perguntava se eu merecia aquilo… e acho que no fundo mereci. ‘Todo inocente tem sua parcela de culpa’.

Quando o questionei, ele apenas disse-me que fez aquilo por fazer e que no fundo eu sabia que ele amava o seu ex e que eu era só um brinquedo.

Arrasado, voltei a me trancar em meu universo medíocre…mas secretamente pedia que alguém me tirasse daquela prisão.

E minhas preces foram atendidas algum tempo depois.

Continua…

O Garoto da Escola – 05

Embora eu não soubesse exatamente o que aconteceria ou me esperaria, eu tinha uma ideia do que me esperava. Aliás, nos esperava.

Embora o Rafael se fizesse de forte, ele nunca havia sofrido rejeição como eu sofria. Ele não estava acostumado a ser ignorado e isso me preocupava.

Como eu imaginava, a Lorena havia contado a todos sobre o meu beijo em Rafael. Aquela víbora deve ter inventado sabe-se lá quantas coisas. Os olhares fortuitos para mim queimavam a minha pele. Alguns dias depois, o Rafael voltou a ir à escola. Embora ele soubesse mais ou menos como as coisas estavam por lá, ninguém imaginava do que seus amigos eram capazes.

Ao avistarem o Rafael, todos se recolheram e quando ele foi cumprimentá-los, um deles disse: o falo com bixas.

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Todos da sala ouviram e riram de canto de boca.

Rafael apenas saiu e sentou-se atrás de mim. Embora seu rosto fosse indecifrável, eu sabia que ele estava arrasado e eu mal podia esperar para falar com ele.

Naquele dia o intervalo demorou a chegar e quando chegou, fomos para os fundos da escola e conversarmos algum tempo.

De forma clara e objetiva, o meu namorado me disse que não iria se abater nem intimidar. E que nada iria nos separar.

Será mesmo que não? Algo dentro de mim dizia que o seria nada fácil.

As conversinhas se espalharam na velocidade da Luz na escola e aquilo incomodava muito.

Eu tinha medo de que o pai do Rafael descobrisse. Essas coisas sempre vazam. E como sabem, foi exatamente o que aconteceu.

O pai da Lorena, amigo do pai do Rafael contou tudo que a sua filha inventou. Tudo que ela bem entendeu.

E como fiquei sabendo? Uma bela tarde, o meu sogro foi até a minha casa, me confrontar. Sem dúvidas uma tarde inesquecivelmente trise.

Continua…

O amor simplesmente acontece

RICO

Vinha cantarolando uma musiquinha dos Beatles que tinha tocado no rádio do carro e que agora não saia da minha cabeça. Estava voltando para casa depois de três dias de reuniões de trabalho na região de Ribeirão Preto. Normalmente quando tenho essas reuniões e elas acabam tarde eu fico mais um dia no lugar para não ter de viajar à noite, mas dessa vez eu estava doido para dormir na minha cama e resolvi viajar direto, sabendo que ia passar a noite dirigindo. Lá pela meia noite dei uma paradinha num desses postos de gasolina que são também parada de ônibus e caminhão para ir no banheiro. Talvez pela hora o posto estava sem movimento nenhum. Estava lá sentadinho quando ouvi que alguém tinha entrado no banheiro, entreabri a porta da cabine e vi que quem tinha entrado era um caminhoneiro, grande pra cacete, usando botas daquelas que tem ponta de ferro. Um cara enorme que eu decididamente não gostaria de cruzar numa noite escura numa rua deserta. O cara se dirigiu direto para o mijador. Logo depois ele foi seguido por um jovem de uns 19 anos magrinho, com cara de criança. O moleque tinha um ar cansado e a sua roupa mostrava que ali não tinha rolado banho há muito tempo. O garoto foi também para o mijador e disse alguma coisa para o caminhoneiro que eu não escutei. Ouvi sim o cara dar um berro: “O QUE?!!” O garoto repetiu, agora mais alto de modo que eu pude ouvir: “Eu chupo o seu pau por cinqüenta paus.” O cara explodiu: “Eu não sou viado!” berrou, enquanto dava um tapa na cara do moleque. Eu fiquei assustado. Também não sou viado, mas não queria ver o moleque ser ferido. Ele caiu encolhido no chão. O cara continuava berrando: “Viado filho da puta, bicha nojenta! Vai se fuder, viadinho escroto”. Enquanto isso ele chutava o moleque por toda a parte. O menino tinha se encolhido contra parede do banheiro, com as pernas dobradas, os joelhos protegendo o corpo e começou a chorar. Eu pensei comigo: cara escroto, batendo num moleque indefeso, bastava ele ter dito que não queria. Aí o cara xingou mais um pouco e foi embora. Meu coração ficou apertado quando vi o carinha todo encolhido, chorando baixinho e resolvi fazer alguma coisa que eu não faria em circunstâncias normais: decidi ajudar. Acabei o que estava fazendo, levantei as calças e fui falar com ele. Quando olhei para ele vieram lágrimas nos meus olhos, o que me deixou envergonhado. Quase fui embora, mas não, resolvi ficar e ajudar o moleque. Depois eu ia ver o que ia rolar. Pus a minha mão no ombro dele e ele se arrastou para trás. “Calma, está tudo bem. Voce não merecia isso.” Ajudei ele a se levantar e ele me abraçou, escondendo a cara no meu ombro, e começou a soluçar forte. Abracei ele também. Eu estava sem saber o que fazer porque nunca tinha abraçado nenhum cara antes, mas aquilo me pareceu ser a coisa certa naquele momento. Levou uns dez minutos até que os soluços dele diminuíram e durante todo esse tempo eu estava sentindo um calor e uma enorme ternura por aquele moleque nos meus braços, ao mesmo tempo que rezava para ninguém entrar e me pegar naquela situação, a todo título vexaminosa. Subitamente ele se afastou. “Desculpa.” ele disse se virando na direção da porta do banheiro. Eu segurei o braço dele quando ele ia abrindo a porta. “Voce tem algum lugar para ir?” perguntei. “Saca… ele disse, … eu não sou problema seu. Aliás, eu não sou problema de ninguém.” “Por que voce não deixa eu decidir isso?” eu falei. “Como voce se chama?” Ele respondeu: “Ricardo, mas me chama de Rico que é assim que todo o mundo me chama.” Perguntei de novo se ele tinha algum lugar para ir. Ele disse que não e eu retruquei: “Então vem comigo”. Enquanto que na minha cabeça eu pensava: Que merda que voce está fazendo Tomás? Pegar garoto perdido na rua não fazia meu estilo. Me importar com os outros também não fazia o meu estilo. Eu tinha construído uma vida legal e confortável para mim, sem maiores compromissos. Jogava tênis e corria regularmente no meu Clube, mas só para manter a forma. Fazia parte da patota do Clube, mas não conhecia direito nenhum dos rapazes e queria continuar não conhecendo. Mulheres? Algumas de vez em quando, mas quanto a formar família nem pensava nisso. Tinha um excelente trabalho, ganhava bem, tinha a minha própria casa. Não precisava nada mais do que isso. Por isso me perguntava: Caralho, o que é que voce está fazendo com um garoto gay sentado no assento do carona do carro? Tomás voce deve estar maluco.

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Olhei para o lado e vi que o Rico tinha começado a dormir. Acho que o carinha vai ter de passar a noite na minha casa. Pensei. Quando chegamos eu não tive coragem de acordá-lo. Então carreguei ele nos meus braços como se fosse um garotinho e deitei ele na minha cama. Fiquei surpreso com o pouco peso dele. Não tinha certeza se eu devia, mas acabei tirando as botas e as meias dele, as calças e a camisa, deixando ele só de cueca e camiseta. Pus um cobertor sobre ele, peguei o meu pijama e fui dormir no quarto de hóspedes.

Continua…